Você está feliz com a sua atuação?

Você, feminista que organiza encontros presenciais para discutir feminismo, está satisfeita com a sua atuação?

E você, que organiza marchas e protestos, está feliz com o seu trabalho na militância?

E quanto a você garota, que produz conteúdo e teoria na internet, sente que está dando uma boa contribuição ao movimento?

 

Se você respondeu sim a qualquer uma das perguntas, continue fazendo o seu trabalho. Se você respondeu não, minha sugestão é uma dose de auto crítica combinada com opinião de quem realmente importa.

 

Sabem onde lista de internet tem importância? Na internet.
Para mulheres que estão sendo agredidas, prostituídas e sofrendo todo o tipo de abuso, listinhas não fazem diferença. Feminismo ativo, sim. Então parem de perder tempo se justificando de coisas que vocês sabem que são infundadas e vamos gastar mais energia nesse trabalho maravilhoso que vocês fazem dentro E fora da internet.  :)

Minha solidariedade a todas as mulheres que são jogadas na fogueira para queimarem como bruxas. <3

 

 

 

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Sem empatia com estupradores

Em tempos de homens organizando Marcha das Vadias ao mesmo tempo em que agridem mulheres, penso que as coisas não podem ficar piores do que já estão. Mas aí vem a Lola e publica um guest post de um estuprador.

Sim, um dos maiores blogs feministas do país, escrito pela pessoa que é fonte pra imprensa quando o assunto é direitos das mulheres, o blog no qual eu e muitas outras pessoas aprenderam sobre feminismo, decidiu dar voz a um estuprador. Poucos tapas na cara doeram tanto quanto esse.

Estupro é um dos crimes mais vis que existem, a ponto de nem outros bandidos tolerarem estupradores em suas celas. Mas, por motivos que acho que nunca entenderei, a Lola considerou que tudo bem dar voz para um no mesmo espaço onde mulheres que já foram estupradas vão para buscar informações e ajuda.

O T. (de tadinho) é um estuprador.
Ele estuprou a própria irmã.
Ele estuprou o próprio primo. (pra que estuprar uma vez só se dá pra fazer mais vezes, né?)
Ambos menores que ele.

A Lola acha que ele é uma vítima. Eu acho que ele é um filho da puta estuprador pedófilo escroto dos infernos. Mas vai ver que sou reaça.

Como a Lola (e vários comentaristas – sério, pessoal, qual o problema de vocês?) já se ocuparam de entender a dor dozomi, digo, entender o arrependimento do estuprador e considerar isso punição suficiente, eu gostaria de lembrar vocês que, enquanto o T(adinho) não consegue dormir a noite, a irmã dele foi estuprada e tem que conviver com o algoz dela até hoje. Provavelmente dividindo a mesma casa.

Mas o T. Fica pensando nisso antes de dormir.

A irmã provavelmente fica remoendo se deve ou não contar para o resto da família o que aconteceu, mas não quer trazer problemas para os pais e tem medo que ninguém acredite nela. Talvez ela fique se questionando se o que aconteceu foi abuso ou se ela está exagerando.

Mas o T. que está sofrendo.

A irmã e o primo possivelmente nunca terão uma vida sexual sadia. Deles, foi roubada toda a experiência de descoberta do sexo e do próprio corpo.

Mas o T. quer se desculpar.

Uma pessoa comentou no post parabenizando a Lola pela coragem e ousadia. Não sei o que há de ousado em algo que acontece todo dia, quando mulheres tentam denunciar seus abusadores e são silenciadas e ridicularizadas, bastando que o homem diga que elas estão mentindo para que sejam descreditadas.

Só sei que uma feminista que está preocupada em sentir empatia por estuprador, em nome dos direitos humanos, não representa o feminismo que quero pra mim.

Por que não quero homens em espaços feministas

De segunda à sexta, acordo e saio para trabalhar.

No trajeto, tenho que me preocupar se não serei estuprada e se aquele homem com quem cruzo na rua não vai tentar alguma gracinha.

No ônibus, um senhor fica me encarando toda vez, porque ele deve achar completamente normal encarar mulheres. Não, ele não encara homens.

No trabalho, vou a uma reunião com clientes. Quando entro na sala sou elogiada por “deixar o ambiente mais bonito”. Afinal, estudei todos esses anos para ser enfeite de reuniões mesmo.

Voltando para casa, invariavelmente ouço alguma cantada. Uma vez, um rapaz achou que seria uma boa ideia pegar na minha bunda.

Chego em casa cansada e entro em um grupo ou página feminista na internet para discutir algum assunto ou bater papo. Quando eu reclamo sobre a atitude dos homens:

– Eu não sou assim!
– Nem todos os homens são assim!
– Você está exagerando!
– Sua histérica. Homens também tem medo de assaltos.
– O feminismo não pode excluir a nós, homens!
– Isso é falta de pinto!
– Sexismo contra homens!
– Mansplaining, mansplaining, male tears, what abou my feelings?

Rapaz, se você for realmente feminista, você entenderia a necessidade de espaços exclusivos e sairia sem reclamar caso fosse requisitado. Se você for um homem feminista de verdade, saberá a hora de calar-se. Do contrário, você é apenas mais um que se diz feminista para ficar bem com as mulheres mas que não consegue conceber a ideia de abrir mão de privilégios.

“Mas precisamos de homens como aliados!”

Não, obrigada.

Quem é o seu inimigo?

Outro dia, li que  temos que parar de querer saber o que mais há no feminismo radical e apontar nomes de feministas que tenham comportamentos perigosos. Eu já fico infeliz com pessoas que falam impropérios sobre o feminismo radical por não conhecê-lo, mas assumir uma postura de ignorância por opção, de não querer saber o que há no feminismo radical antes de refutá-lo é desonestidade intelectual pura.

A minha interpretação do que a pessoa disse foi: “Eu não ligo se há uma teoria por trás da fala. Só quero atacar pessoas mesmo.”

Não sou contra apontar inconsistências no discurso de alguém , desde que feito de forma lógica e honesta (e desde que não seja mansplaining, por favor). Mas sou contra linchamento coletivo. Sou contra linchamento coletivo de feministas. Sou contra o linchamento coletivo de feministas por alguém que não se interessa em saber “o que mais tem no feminismo radical.”

Só queria lembrar que enquanto você se ocupa de atacar outras feministas, há homens questionando o nosso protagonismo, há machistas se infiltrando em grupos feministas, há machistas pautando discussões feministas. Isso apenas na internet.

Na vida real, enquanto você se ocupa de atacar outras feministas, há mulheres sendo estupradas, agredidas por seus parceiros , silenciadas, oprimidas, excluídas.

Por mais que eu discorde do que algumas feministas dizem e até do que o feminismo liberal prega, eu não vou mexer um dedo para ameaçá-las ou silenciá-las. Mulheres não são minhas inimigas.

Eu sempre acreditei que uma das maiores vitórias do patriarcado foi aliciar mulheres para o lado dele e fazê-las reproduzirem comportamentos machistas. E competir, odiar, atacar e hostilizar umas as outras. Para o patriarcado, é muto benéfico que mulheres briguem entre si, afinal, enquanto fazemos isso, ignoramos quem é o nosso verdadeiro inimigo.

Mas cada um tem as suas prioridades, não é?

Saiaço da USP pt. 2

Aparentemente, os alunos que organizaram o protesto das saias na USP acharam que meu blog é influente o suficiente para merecer uma carta aberta de resposta.

Erm, obrigada?

Fica registrada a versão dos fatos de vocês e seus contrapontos ao meu post que foram feitos via comentários. Antes de encerrar o assunto, queria deixar duas críticas (escritas de forma bem mais assertiva que a minha) que acho interessante vocês lerem:

http://www.facebook.com/danielaumalutadora/posts/122635954606656

https://www.facebook.com/arthur.grimm.3/posts/516972718350677

De modo algum condeno a iniciativa de vocês protestarem contra qualquer coisa que seja, mas, por favor, considerem as críticas, porque, mesmo sem intenção, vocês podem estar se apropriando da narrativa de outros grupos.

E só para esclarecer, porque algumas pessoas conseguem passar no vestibular mais concorrido do país mas não sabem diferenciar blog de jornal: Isto é um blog. Ele é opinativo. Não tenho interesse em imparcialidade. Não escrevo artigos. Ok? Ok.

Agora chega de me encher o saco com esse assunto. Vão estudar que o fim do semestre está logo aí.

2000 visualizações e a minha inaptidão para lidar com essas coisas

Ontem, antes de dormir, dei uma última olhada no blog, vi que tinha 30 visualizações (25 eram minhas, com certeza) achei um sucesso e fui dormir.

Hoje, cheguei do trabalho e eram mais de 2000 visualizações. 10 comentários aguardando aprovação. E eu tive uma mini taquicardia.

Uau.

Quando criei esse blog, era para ser algo completamente sem importância. Como eu gasto tempo demais pensando em alguns assuntos, e não me animo em discutir eles com qualquer um, o blog foi criado para eu descarregar essas ideias e minhas conclusões.

Eu jamais esperava tantas reações para o texto bobinho que escrevi sobre o protesto da USP. Até porque, como eu disse, eu só quis descarregar minha opinião em algum lugar. E foi o texto mais visualizado do blog. E as pessoas estão me xingando por causa dele, haha.

Depois, vi que a Lola me listou no blog dela como um blog radfem, e acho que as pessoas vieram para cá esperando ler altas coisas sobre feminismo radical. O texto da Lola foi completamente equivocado, e entrarei nesse assunto outro dia,  mas a pessoa que mandou o e-mail para ela (e eu sei quem foi, a internet não é esse mundão vasto que pensamos ser) errou feio ao me apontar como um dos blogs radfem que surgiu. Sinto decepcioná-los.

Veja bem, eu sou feminista radical, então, o que eu for postar sobre feminismo naturalmente terá viés radical. Mas vou querer falar de outros assuntos. Por favor, não usem meu blog como bíblia radfem. Há outros sites onde quem tiver interesse pode aprender sobre o assunto.

E antes de ser radical, sou feminista e antes de ser feminista sou um ser humano que eventualmente erra e fala merda. Por favor, sejam gentis ao me crucificar.

Por fim, tentarei responder a todos os comentários que acho que necessitam de resposta. Lembrem-se, aqui é o meu espaço e não uma democracia: se eu julgar que você extrapolou limites e que não merece mais voz aqui, assim procederei.

Melhor ler certas coisas do que ser cega. Ou não.

Eu fico bastante incomodada quando vejo feministas falando impropérios sobre o feminismo radical por ignorância e desconhecimento do movimento. Mas ver um homem dizendo que o feminismo radical tinha que ter morrido nos anos 70 e que a necessidade de protagonismo é questionável me deixa muito, mas muito ofendida.

Ontem, eu infelizmente topei com o texto abaixo, e quis enfiar garfos nos meus olhos.

http://hollowfang.wordpress.com/2013/05/18/os-problemas-estruturais-do-feminismo-radical/

Mas antes de continuarmos, uma mensagem de nossos patrocinadores:

Voltando ao texto. Problemas Estruturais do Feminismo Radical. Se você já achou ruim um homem querer apontar problemas no feminismo, segura firme na minha mão, que a coisa só piora.

Eu tenho algumas observações mais gerais sobre o feminismo de segunda onda e por que ele deveria ser deixado nos anos 70.

Amigo, eu sei que você está todo feliz que as meninas deixaram você brincar de feminista, mas por favor, estude um pouco antes de sair falando essas coisas. Não reconhecer a importância e a necessidade de uma vertente que critica ativamente a prostituição, a pornografia, o tráfico de mulheres, a violência sexual, os papéis de gênero, é ridiculamente absurdo. E lembre-se que, sem a segunda onda do feminismo, não existiria a terceira onda.

Por favor, não fale mais esse tipo de besteira em público.

Muito se reclama do mansplaining, o hábito insuportável de homens que acham saber mais sobre o sofrimento das mulheres que as próprias mulheres, querem explicar melhor que elas pelo que elas passam e se colocam no direito de dizer o que elas devem ou não considerar ofensivo. Esse hábito que tanto é rechaçado pela comunidade feminista como um todo foi substituído entre as radfems pelo cisplaining.

Muito se reclama do mansplaining, então deixa eu fazer um texto explicando para essas feministas o problema do movimento delas. APENAS. NÃO.

Vou confessar que desde quando surgiu a discussão do protagonismo feminino alguma coisa já me soava estranha nesse discurso. A premissa é totalmente válida: se for para existir protagonismo na luta feminista (a necessidade de protagonismo é bastante questionável), ele precisa ser feminino.

A necessidade de protagonismo é bastante questionável

A necessidade de protagonismo é bastante questionável

A necessidade de protagonismo é bastante questionável

Sim, vocês leram certo. É um homem dizendo que a necessidade do protagonismo feminino dentro do próprio movimento é questionável.

A única coisa bastante questionável dentro do feminismo é a presença de homens, ainda mais se forem como você que acham que a voz masculina deve ter tanto peso quanto a voz feminina.

Tenho visto casos onde se defende que a opinião de uma mulher SEMPRE é mais importante que a de um homem dentro do feminismo. Isso me preocupa bastante.

Me preocupa bastante o fato de que, apesar de eu ter voz em todos os setores da sociedade, essas feminazis malvadas queiram me calar no movimento delas, snif.

Pausa para eu tomar meus bons drink de lágrimas masculinas.

TL;DR: Homem “feminista”dizendo que o feminismo radical tem problemas por não aceitar que a voz masculina tenha tanto peso quanto a feminina, entre outros absurdos.

Você não é feminista. Você é machista e não é bem-vindo no feminismo radical. E não deveria ser bem-vindo em feminismo algum.
O choro é livre.

Saiaço da USP: Não é revolução quando você veste uma saia e fica imitando trejeitos femininos

Essa semana, todo mundo que tem o mínimo de envolvimento com feminismo ouviu falar no protesto que a alunos da USP organizaram após um estudante ser hostilizado na internet por ir à faculdade usando uma saia – linda, diga-se de passagem. A justificativa do protesto, segundo os organizadores, é estimular a discussão de papéis de gênero. Ótimo.

Bom, é agora que eu começo a nadar contra a corrente de elogios que li em várias páginas feministas. Eu não apoiaria esse protesto.

Calma, eu explico.

Não acho legal que o cara tenha sido ofendido por usar uma saia. Por favor, 2013 quase na metade e tem gente que fica nessa de roupa de homem/roupa de mulher.

Acho importante que homens usem saias e mulheres usem ternos como forma de ajudar a abolir o gênero.

Mas não vejo que a discussão de papéis de gênero virá enquanto os protestos sejam nos moldes:  Por um dia, vamos usar saia porque e coisa de mulher e as meninas usam gravata porque é coisa de homem. Esse tipo de ação reforça ainda mais os estereótipos relacionados ao gênero. Assim como vestir saia e ficar emulando comportamentos que a sociedade atribui a mulheres.

E vamos combinar que se o Danilo Gentili apóia o seu protesto, algo deve estar errado, hahaha.

Homens, usem saias. Mas usem porque vocês gostam de usar, porque são peças de roupas bonitas, porque usar saia faz parte de ser quem você é. Não use saia porque é roupa feminina e você quer se sentir subversivo. Idem para as mulheres e gravatas ou qualquer outro traje que a sociedade considera masculino.

Por fim, vamos a um pequeno choque de realidade:

Cenário: Homem usa saia e é ofendido.
Reação:  Que absurdo!!! Vamos logos nos mobilizar para defender este pobre homem!
Sai notícia no G1 e na Folha de S. Paulo.

Cenário: Mulher usa saia e é cantada, passada a mão, estuprada.
Reação: Ah, mas estava pedindo. Quem mandou sair com uma saia dessas na rua?

O patriarcado roubou o melhor da minha mãe

Minha mãe nasceu em uma época em que não havia muitas opções para mulheres além de ser dona-de-casa ou professora. Como ser professora era reservado para filhas de famílias mais abastadas, ela ficou com o dona-de-casa.

Quando minha avó adoeceu e precisou de cuidados em tempo integral, minha mãe teve que abandonar o estudos na quarta série. O irmão dela continuou estudando e formou-se em uma faculdade. Minha mãe cuidou da minha avó, da casa e da família por muitos anos, até minha avó falecer.

Mesmo sem estudo, após a morte da minha avó, ela conseguiu um emprego em um escritório. E ela adorava o emprego e trabalhar fora. Durante esses anos, teve um namorado que foi muito especial. Um dia, ele pediu para que minha genitora fosse morar junto com ele. Eram tempos ridiculamente conservadores e minha mãe, temendo ser mal vista e ostracizada pela sociedade por morar com um homem sem se casar, negou a proposta. Desnecessário dizer que o namoro acabou.

Então ela conheceu o meu pai e começaram a namorar. Mamãe não tinha intenções de se casar, em parte por achar desnecessário e também por não ter esquecido o ex-namorado. Mas o pai dela a pressionou e ela casou-se contra a própria vontade. Após casar-se, saiu do emprego, a pedido do meu pai

Não foi um casamento plenamente feliz e várias vezes a ouvi dizer que a única coisa boa que tinha surgido dele foram eu e minha irmã.

Mesmo assim, ela criou duas filhas, resistiu a bravas crises econômicas, carregou a casa nas costas e me ensinou a não aceitar qualquer tipo de abuso. (Mãe, gostaria que soubesse que lembro de seus ensinamentos e sempre os aplico, mas há vezes em que a sociedade e a misoginia dobram os meus joelhos.)

Minha mãe foi o meu primeiro e mais duradouro relacionamento de sororidade.

O patriarcado roubou da minha mãe seus estudos, sua profissão, suas chances de ser feliz num relacionamento. O patriarcado roubou o melhor da minha mãe e de muitas outras mulheres.